Um homem também chora. Uma mulher também se masturba.

Duas frases aparentemente sem relação. Duas verdades humanas. E uma pergunta: será que mudámos tanto como gostamos de acreditar?

Um homem chora.

Uma mulher masturba-se.

Qual das duas afirmações te parece mais desconfortável?

Talvez nenhuma. Afinal, estamos em 2026. Falamos de liberdade, igualdade e respeito com uma naturalidade que seria difícil imaginar há algumas décadas.

Ou talvez tenhamos aprendido a aceitar certas coisas em público e continuemos a ter dificuldade em aceitá-las quando acontecem dentro da nossa própria relação.

O desejo feminino deixou de falar tão baixinho

Trabalho com brinquedos sexuais desde 2002. Ao longo destes 24 anos, vi mudanças que nenhum relatório conseguiria mostrar da mesma maneira que uma conversa no nosso showroom.

Nos primeiros anos da 1001 Noites, eram poucas as mulheres que entravam pessoalmente para escolher um vibrador. Algumas tinham dificuldade até em explicar ao telefone o que procuravam, apesar de ninguém lhes estar a ver a cara.

Curiosamente, entre essas primeiras clientes, recordo várias mulheres com mais de 35 anos, algumas divorciadas e com formação superior. Médicas, advogadas e outras profissionais que, aparentemente, se sentiam suficientemente à vontade para assumir as suas escolhas sexuais.

Não tenho números nem pretendo tirar conclusões sociológicas desta observação. Era simplesmente um perfil que me chamava a atenção entre as mulheres de quem acabava por conhecer alguns pormenores pessoais.

Hoje, a realidade é profundamente diferente.

Recebo jovens universitárias, mulheres acompanhadas de amigas, casais que escolhem brinquedos em conjunto e homens que vêm comprar exatamente aquilo que as companheiras lhes pediram.

Aquilo que antes parecia estar reservado a um grupo mais restrito de clientes tornou-se, para muitas mulheres, uma escolha perfeitamente natural.

Não tenho estatísticas sobre esta evolução. Tenho a experiência de inúmeras conversas e a memória de episódios que ficaram comigo.

Duas amigas, dois vibradores e nenhuma necessidade de pedir desculpa

Há três ou quatro anos, duas jovens, aparentemente com cerca de vinte anos, entraram no showroom. Nunca tinham visitado uma sex shop e queriam comprar os seus primeiros vibradores.

Uma pegou num modelo de dimensões médias, com cerca de 3,5 centímetros de diâmetro. A outra olhou, riu-se e respondeu:

«Epá, isso para mim não é nada!»

Foi à prateleira, escolheu um vibrador bastante mais grosso, com cerca de 4,5 a 4,8 centímetros de diâmetro, e decidiu comprá-lo.

A amiga pensou que ela estava a brincar. Não estava. Cada uma levou o modelo que preferia, depois de uma conversa bem-disposta sobre tamanhos e gostos pessoais.

Estávamos apenas os três. O showroom é um espaço discreto, e isso também conta. Ainda assim, o que me impressionou foi a naturalidade com que discutiram o assunto à minha frente.

Nem desculpas, nem vergonha, nem necessidade de fingir que o produto era para outra pessoa.

Não conto isto para sugerir que duas jovens representam todas as mulheres portuguesas. Conto porque episódios deste género se tornaram bastante mais comuns no meu trabalho.

A liberdade sexual não significa que todas gostem do mesmo. Significa que cada uma pode dizer aquilo de que gosta.

E os homens? Também mudaram.

Há outra mudança que merece ser contada.

Hoje, recebo homens que vêm comprar vibradores porque as companheiras lhes pediram. E alguns pedem modelos muito grossos, perfeitamente conscientes de que são maiores do que o seu próprio pénis.

Falam disso com uma naturalidade que me continua a surpreender. Não sentem necessidade de competir com o brinquedo nem de apresentar a escolha da companheira como uma fantasia deles.

Nos primeiros anos, também havia homens a comprar esses produtos. Só que, em alguns casos, a explicação surgia mais pelo lado do fetiche pessoal: gostavam de ver a companheira utilizar um vibrador grande.

Hoje, escuto muitas vezes uma razão mais simples:

«É o que ela gosta.»

Claro que há homens que se sentem inseguros. Também há outros que não revelam qualquer problema com isso. Não conheço proporções fiáveis e não vou inventá-las.

O que a experiência me permite dizer é que seria injusto continuar a retratar o homem como alguém inevitavelmente ameaçado pelo desejo autónomo da mulher.

As mulheres mudaram. Muitos homens mudaram com elas.

E esta evolução leva-me à outra metade do título.

O homem que aprendeu a não chorar

Durante gerações, muitos rapazes cresceram a ouvir:

«Não chores, parece que és uma menina.»

Chorar era fraqueza. E fraqueza, segundo essa velha lógica, não combinava com ser homem.

Tenho a perceção de que hoje existe maior abertura. É mais habitual ouvir homens falar com amigos sobre uma separação, admitir tristeza ou chorar sem serem automaticamente ridicularizados. Sobretudo entre os mais novos, parece-me que alguma coisa mudou.

Esta é uma observação pessoal, não um resultado de investigação.

Só que aceitar a tristeza de um amigo e aceitar a fragilidade do companheiro podem não ser exatamente a mesma coisa.

Quando as coisas se tornam difíceis, quem tem de ser forte?

É fácil dizer que gostamos de um homem sensível.

Podemos até admirar que chore, que fale dos seus sentimentos e que reconheça as suas inseguranças.

Só que há uma pergunta menos confortável.

O que acontece quando esse mesmo homem perde o emprego, tem medo do futuro, não consegue pagar as contas ou simplesmente admite que não sabe o que fazer?

Continuamos a admirar a sua sensibilidade?

Ou esperamos que deixe de lado as emoções e volte a ser aquele homem forte, decidido e protetor, capaz de enfrentar tudo e encontrar sempre uma solução?

E há aqui uma contradição que me intriga particularmente.

Será que algumas mulheres, incluindo as que defendem convictamente a igualdade entre homens e mulheres, continuam a esperar que seja o companheiro a assumir esse papel quando a vida se complica?

Não estou a questionar a igualdade de direitos. Estou a questionar algo diferente:

Será que as nossas convicções evoluíram mais depressa do que as nossas expectativas emocionais?

Talvez uma mulher não tenha qualquer dificuldade em dizer ao companheiro que deseja um vibrador muito maior do que o pénis dele. E talvez esse homem aceite isso com absoluta naturalidade.

Contudo, se amanhã ele lhe disser que está assustado, que não sabe como resolver um problema e que precisa de ser amparado, será recebido com a mesma naturalidade?

Não sei quantas relações funcionam assim. Não pretendo transformar uma perceção pessoal numa regra sobre as mulheres.

Só acho que a pergunta merece ser feita.

Será que um homem tem verdadeiramente liberdade para ser frágil, ou apenas tem liberdade para demonstrar fragilidade enquanto tudo corre bem?

Há uma expressão inglesa que conhecemos bem: When the going gets tough, the tough get going. Quando as coisas apertam, espera-se que os fortes avancem.

Não há nada de errado em admirar a coragem ou em querer alguém que transmita segurança. O problema começa se essa admiração se transformar na obrigação de nunca vacilar.

Porque ser corajoso não significa nunca ter medo.

E proteger alguém não significa nunca precisar de proteção.

O silêncio também entra na cama

Esta expectativa de ter de estar sempre à altura não fica à porta do quarto.

Imagina um homem que atravessa uma fase de insegurança e, numa determinada noite, não consegue ter uma ereção.

Se tiver aprendido que a masculinidade depende do desempenho sexual, talvez interprete esse episódio como um fracasso.

Agora imagina uma mulher que conhece bem o próprio corpo, sabe como atingir o orgasmo através da masturbação e, ainda assim, receia explicar ao companheiro que precisa de uma estimulação diferente durante o sexo.

Ele não quer desiludir.

Ela não quer ferir o orgulho dele.

Duas pessoas que gostam uma da outra podem acabar por esconder precisamente aquilo que lhes permitiria compreender-se melhor.

Exigimos sinceridade de quem amamos. Estamos preparados para ouvir aquilo que essa pessoa realmente sente e deseja?

Liberdade, desde que não abale as nossas certezas?

Uma mulher pode masturbar-se, conhecer o seu corpo e escolher aquilo que lhe dá satisfação sem que isso seja uma crítica ao companheiro.

Um homem pode chorar, sentir medo e pedir ajuda sem deixar de ser alguém capaz de enfrentar dificuldades.

O desafio não está em afirmar estas duas frases. Está em lidar com as suas consequências quando dizem respeito à pessoa com quem partilhamos a vida.

Podemos desejar um companheiro que nos transmita segurança sem lhe exigir invulnerabilidade.

Podemos gostar de proporcionar satisfação sexual sem exigir que toda a satisfação do outro dependa de nós.

E podemos defender a igualdade enquanto reconhecemos que algumas expectativas antigas ainda sobrevivem dentro de nós.

O que fazemos quando é a nossa vez de aceitar?

Há 24 anos, muitas das conversas que hoje acontecem no nosso showroom seriam difíceis de imaginar.

Vi mulheres ganhar à-vontade para falar de sexualidade. Vi homens aprender a escutar preferências que não têm de coincidir com as suas.

São mudanças que testemunhei diretamente.

Quanto à liberdade emocional masculina dentro das relações, tenho sobretudo uma perceção e muitas perguntas. Não a vou apresentar como uma verdade demonstrada.

Talvez a medida mais exigente da nossa evolução não esteja naquilo que defendemos em público.

Talvez esteja na forma como reagimos quando é a pessoa que amamos a precisar de uma liberdade que nos deixa desconfortáveis.

Um homem também chora. Uma mulher também se masturba.

Já conseguimos dizer ambas as frases sem grande escândalo.

A pergunta é se conseguimos viver com todas as consequências daquilo que dizemos aceitar.

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Paulo Silva

Sócio Gerente da 1001Noites Sex Shop.

A 1001 Noites Sex Shop Online foi uma ideia em 2002.

Na altura praticamente não havia oferta online e o que havia demorava mais de uma semana a ser entregue.

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