Será que fazemos sexo apenas pelo orgasmo? Ou existem outras recompensas, menos evidentes, que podem ser igualmente importantes?

Imagina uma mulher que tem uma relação sexual com um homem, não atinge o orgasmo e, ainda assim, termina o encontro profundamente satisfeita.

Agora imagina um homem que atinge o orgasmo durante uma relação sexual e, apesar disso, termina com a sensação de que alguma coisa faltou.

Nenhuma destas situações é necessariamente contraditória.

O sexo pode proporcionar satisfação física, intimidade, reconhecimento, autoestima e até uma sensação de poder.

E talvez seja precisamente esta diversidade de recompensas que explica por que razão duas pessoas podem viver o mesmo encontro sexual de formas tão diferentes.

Na 1001 Noites, acreditamos que compreender a sexualidade implica olhar para além das técnicas, dos produtos e dos orgasmos. Significa também tentar perceber aquilo que cada pessoa procura quando deseja outra.

Porque fazemos sexo? A resposta é muito mais complexa do que parece

A resposta aparentemente mais evidente seria: para obter satisfação sexual.

Contudo, a investigação científica demonstra que as motivações humanas são bastante mais diversificadas.

Em 2007, os psicólogos Cindy Meston e David Buss publicaram o estudo Why Humans Have Sex, no qual identificaram 237 razões apresentadas pelas pessoas para terem relações sexuais.

Entre elas encontravam-se a atração física, a procura de satisfação, a intimidade emocional, a necessidade de reconhecimento e até motivações relacionadas com a autoestima ou com os conflitos pessoais.

Isto não significa que todas as razões tenham a mesma importância ou frequência.

Significa que o sexo pode responder a necessidades humanas muito diferentes.

A recompensa física: excitação e orgasmo

O orgasmo é uma das experiências físicas mais intensas associadas à sexualidade.

Para muitas pessoas, constitui uma parte fundamental da satisfação sexual.

É natural que alguém procure uma relação sexual com a expectativa de atingir o orgasmo e que possa sentir frustração quando isso não acontece.

Contudo, o orgasmo não é uma condição obrigatória para que toda a experiência seja considerada satisfatória.

A recompensa emocional: sentir-se desejado

Existe outra dimensão frequentemente menos valorizada.

Sentir que alguém nos deseja pode reforçar a confiança, a autoestima e a perceção da nossa própria atratividade.

Uma pessoa pode sentir uma enorme satisfação ao perceber que desperta desejo no parceiro.

Essa satisfação não depende necessariamente de atingir o orgasmo.

Para algumas pessoas, sentir-se genuinamente desejado pode ser tão importante como a estimulação física.

A recompensa psicológica: satisfazer o outro

Há ainda quem encontre uma parte importante da sua satisfação sexual na satisfação do parceiro.

Um homem pode sentir-se particularmente realizado ao proporcionar um orgasmo à companheira.

Uma mulher pode sentir-se profundamente satisfeita ao perceber que despertou um desejo intenso no companheiro e que contribuiu para a sua satisfação.

E estas situações podem acontecer independentemente do orgasmo de quem proporciona essa experiência.

Não se trata necessariamente de sacrifício. Pode existir uma satisfação genuína em dar.

O orgasm gap: quando homens e mulheres não atingem o orgasmo com a mesma frequência

O chamado orgasm gap, ou desigualdade orgásmica, descreve diferenças na frequência com que determinados grupos atingem o orgasmo durante as relações sexuais.

Um estudo publicado em 2018 na revista Archives of Sexual Behavior, com 52 588 adultos norte-americanos, encontrou resultados bastante expressivos.

Entre os participantes heterossexuais, 95% dos homens e 65% das mulheres declararam atingir o orgasmo habitualmente ou sempre durante a atividade sexual.

O mesmo estudo encontrou uma frequência de 86% entre mulheres lésbicas.

Estes números referem-se à frequência habitual declarada pelos participantes, não à probabilidade de orgasmo num encontro isolado.

A diferença levanta uma questão importante: se o orgasmo feminino ocorre com maior frequência em determinados contextos, será que parte da desigualdade está relacionada com a forma como o sexo é praticado?

A investigação aponta para a importância da comunicação, da estimulação clitoriana e do conhecimento das preferências de cada pessoa.

Ter um orgasmo e ficar satisfeito são coisas diferentes

É aqui que surge uma distinção fundamental.

Uma pessoa pode atingir o orgasmo e considerar que a experiência sexual foi pouco satisfatória.

Outra pode não atingir o orgasmo e, ainda assim, sentir que viveu um encontro extraordinário.

O orgasmo constitui um indicador importante da experiência sexual. Não mede, isoladamente, todas as suas dimensões.

Isto não reduz a importância do orgasmo feminino, nem significa que a ausência recorrente de orgasmos deva ser ignorada.

Significa simplesmente que a satisfação sexual deve ser compreendida através de vários indicadores.

O perigo de considerar o orgasmo masculino garantido

Nas relações heterossexuais, existe frequentemente a expectativa de que o homem atingirá o orgasmo durante a penetração.

Essa expectativa pode levar ambos os parceiros a prestar menos atenção às necessidades masculinas que não estejam diretamente relacionadas com o orgasmo.

Um homem pode atingir o orgasmo e continuar a precisar de sentir que é desejado, que a companheira gosta de estar com ele e que participa na experiência por vontade própria.

O orgasmo masculino também não acontece obrigatoriamente em todas as relações sexuais.

E a ausência de orgasmo não deve ser automaticamente interpretada como falta de atração pelo parceiro.

Sexo sem orgasmo: satisfação, desejo ou poder?

Esta talvez seja a pergunta mais provocadora de todo o artigo.

Será possível que alguém procure uma relação sexual principalmente para confirmar a sua capacidade de despertar desejo?

Imaginemos uma mulher que deseja sentir-se atraente.

Ela envolve-se sexualmente com um homem, sente que ele a deseja intensamente e percebe que contribuiu para a satisfação dele.

Mesmo sem atingir o orgasmo, pode terminar essa experiência com uma sensação de valorização pessoal.

Agora imaginemos um homem que procura sentir-se desejado por uma mulher.

Ela demonstra iniciativa, atração e vontade de estar com ele.

O homem pode sentir-se especialmente valorizado não apenas pelo orgasmo, e sim pela certeza de que aquela mulher o deseja genuinamente.

São experiências hipotéticas que ilustram uma ideia: o desejo do outro pode constituir, por si só, uma recompensa.

Quando ser desejado se transforma numa sensação de poder

Sentir que despertamos desejo pode reforçar a nossa perceção de atratividade e confiança.

Em determinadas circunstâncias, pode também produzir uma sensação de influência sobre outra pessoa.

É importante distinguir duas situações.

Uma coisa é sentir poder sobre a própria sexualidade: saber que somos atraentes, que podemos escolher e que temos liberdade para aceitar ou recusar uma proposta.

Outra, bastante diferente, é utilizar deliberadamente o desejo sexual para controlar o comportamento do parceiro.

A primeira está relacionada com autonomia e confiança. A segunda pode envolver manipulação e desigualdade.

Não existem fundamentos suficientes para afirmar que esta motivação seja exclusiva ou predominante num determinado sexo.

Quem consegue sexo com maior facilidade tem mais poder?

Em determinados contextos heterossexuais, as mulheres podem encontrar uma maior disponibilidade masculina para encontros sexuais ocasionais.

Contudo, ter acesso a potenciais parceiros não significa necessariamente encontrar alguém que desperte atração, ofereça segurança ou corresponda às expectativas sexuais.

Também não significa possuir maior poder emocional dentro de uma relação estável.

O poder de escolher um parceiro, a satisfação obtida no encontro e a influência exercida dentro da relação são dimensões diferentes.

Podem coexistir em equilíbrio ou apresentar desigualdades.

Esta ligação entre disponibilidade sexual e poder relacional constitui uma hipótese interessante para investigação, não uma relação causal demonstrada.

Dar satisfação ao parceiro também pode ser uma recompensa

A psicologia das relações utiliza o conceito de sexual communal strength para descrever a motivação para atender às necessidades sexuais do parceiro.

Investigações de Amy Muise e colegas encontraram associações entre esta motivação e uma maior satisfação sexual e relacional.

Isto ajuda a explicar uma experiência que muitos casais conhecem: sentir satisfação ao proporcionar uma boa experiência sexual ao outro.

Quando satisfazer o outro é uma escolha

Uma pessoa pode, livremente, dar prioridade à satisfação do parceiro num determinado encontro.

Pode fazê-lo porque gosta, porque sente desejo, porque valoriza a intimidade ou simplesmente porque naquele momento essa é a experiência que procura.

Desde que exista consentimento e liberdade de escolha, não há motivo para considerar automaticamente essa situação negativa.

Quando a satisfação do outro se torna uma obrigação

A investigação também distingue a atenção saudável às necessidades do parceiro da tendência para negligenciar sistematicamente as próprias necessidades.

Um estudo publicado em 2023 no Journal of Sex Research encontrou associações entre essa autonegligência e menor satisfação sexual.

Portanto, existe uma diferença essencial entre escolher proporcionar satisfação ao parceiro e sentir que se tem a obrigação de o fazer.

Uma relação sexual pode ser assimétrica num determinado momento sem existir qualquer problema.

A dificuldade surge quando essa assimetria se torna permanente, indesejada ou impossível de discutir.

O que acontece quando os parceiros procuram recompensas diferentes?

Imagina um casal em que o homem valoriza especialmente o orgasmo e a mulher valoriza especialmente a sensação de intimidade.

Ou outro em que a mulher deseja atingir o orgasmo com maior frequência e o homem atribui especial importância a sentir-se sexualmente desejado.

Nenhuma destas preferências é, por si só, superior à outra.

O problema pode surgir quando cada pessoa parte do princípio de que o parceiro procura exatamente a mesma recompensa.

Comunicar desejos também é uma forma de intimidade

Perguntar ao parceiro o que o satisfaz pode parecer simples.

Ainda assim, implica ultrapassar ideias feitas sobre o que os homens e as mulheres supostamente desejam.

O que torna uma relação sexual verdadeiramente satisfatória para ti?

O que valorizas mais: o orgasmo, a intimidade, a excitação, a sensação de ser desejado ou o facto de satisfazeres a outra pessoa?

A resposta pode mudar ao longo da vida e até de um encontro para outro.

Os brinquedos sexuais podem contribuir para uma satisfação mais equilibrada?

Os brinquedos sexuais podem facilitar a exploração de diferentes formas de estimulação, incluindo a estimulação clitoriana durante a penetração.

Podem também permitir que cada parceiro comunique melhor aquilo de que gosta e descubra novas formas de partilhar a satisfação.

Na 1001 Noites, defendemos que nenhum produto substitui o desejo genuíno, o respeito ou a comunicação.

Um vibrador, por exemplo, pode ser uma excelente ferramenta para explorar sensações em conjunto. Não é uma solução automática para dificuldades emocionais ou relacionais.

Se este tema te interessa, podes também ler o nosso guia Como usar um vibrador a dois durante a penetração.

Perguntas frequentes sobre satisfação sexual

É possível ter uma relação sexual satisfatória sem orgasmo?

Sim. O orgasmo pode ser uma parte importante da experiência sexual, sem constituir a única fonte de satisfação. A intimidade, a excitação, a sensação de ser desejado e a satisfação do parceiro também podem contribuir para uma experiência positiva.

As mulheres valorizam menos o orgasmo do que os homens?

Não podemos concluir isso a partir da diferença na frequência de orgasmos. O orgasmo feminino pode ser muito importante, e a sua ausência pode causar insatisfação. Existem diferenças individuais e contextuais que impedem uma generalização simples.

Sentir-se desejado pode ser tão importante como o orgasmo?

Para algumas pessoas e em determinadas circunstâncias, sim. A importância relativa do desejo, do orgasmo e da intimidade varia entre indivíduos e situações.

Satisfazer o parceiro sem atingir o orgasmo significa abdicar da própria satisfação?

Não necessariamente. Proporcionar satisfação pode ser uma experiência positiva por si só. O essencial é que resulte de uma escolha livre e não da obrigação de ignorar as próprias necessidades.

Conclusão: a recompensa invisível do sexo

Talvez estejamos demasiado habituados a avaliar uma relação sexual pelo que acontece no seu momento final.

Houve orgasmo? Quantos? Quem atingiu primeiro? Quem ficou satisfeito?

São perguntas legítimas.

Contudo, existe outra pergunta que raramente fazemos:

O que é que cada pessoa procurava verdadeiramente naquele encontro sexual?

Podia ser o orgasmo.

Podia ser a intimidade.

Podia ser o desejo.

Podia ser a confirmação de que continuava a ser atraente.

Podia ser a satisfação de proporcionar uma experiência especial a alguém.

Ou podia ser uma combinação de várias destas recompensas.

Compreender a sexualidade implica reconhecer que o sexo não tem necessariamente o mesmo significado para todas as pessoas, nem para os dois participantes no mesmo encontro.

E que uma relação sexual equilibrada não exige experiências idênticas. Exige liberdade, respeito e atenção às necessidades de ambos.

Porque, por vezes, a recompensa mais importante do sexo não é aquilo que sentimos no corpo. É aquilo que sentimos sobre nós próprios quando alguém nos deseja.


Fontes científicas

Meston, C. M., & Buss, D. M. (2007). Why Humans Have Sex. Archives of Sexual Behavior, 36, 477–507. Consultar estudo.

Frederick, D. A., et al. (2018). Differences in Orgasm Frequency Among Gay, Lesbian, Bisexual, and Heterosexual Men and Women in a U.S. National Sample. Archives of Sexual Behavior, 47, 273–288. Consultar estudo.

Armstrong, E. A., England, P., & Fogarty, A. C. K. (2012). Accounting for Women's Orgasm and Sexual Enjoyment in College Hookups and Relationships. American Sociological Review, 77(3), 435–462. Consultar estudo.

Muise, A., & Impett, E. A. (2015). Good, Giving, and Game: The Relationship Benefits of Communal Sexual Motivation. Social Psychological and Personality Science, 6(2), 164–172. Consultar estudo.

Shoikhedbrod, A., et al. (2023). Being Responsive and Self-Determined When it Comes to Sex. The Journal of Sex Research, 60(8), 1113–1125. Consultar estudo.

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Paulo Silva

Sócio Gerente da 1001Noites Sex Shop.

A 1001 Noites Sex Shop Online foi uma ideia em 2002.

Na altura praticamente não havia oferta online e o que havia demorava mais de uma semana a ser entregue.

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